ENTREVISTA
Nesta reta
final do ano do 10º aniversário do Programa Escolhas, conheça como
tudo começou com João Pedroso, jurista e investigador, que
acompanhou de perto esses primeiros tempos.
João Pedroso é advogado,
investigador do Centro de Estudos Sociais e assistente da Faculdade
de Economia da Universidade de Coimbra. Foi há dez anos atrás o
Coordenador da equipa técnica que desenhou o Programa Escolhas a
pedido do governo de então. Hoje volta a olhar para as ideias que
presidiram a este projecto na altura e a reenquadra-las em novos
desafios.
Programa Escolhas: Como é que surgiu o
programa Escolhas?
João Pedroso: A ideia de criar o escolhas foi do Primeiro
Ministro de então, o Dr. António Guterres, do Ministro do Trabalho
e da Solidariedade, Dr. Ferro Rodrigues e do Dr. António Costa, que
na altura tinha a pasta da Justiça. Foi sua a conclusão de que
havia então em Portugal a necessidade de criar em Portugal uma
resposta para os problemas de inserção social dos jovens dos
bairros das periferias urbanas. A reflexão que levou à necessidade
de definir esta política decorreu de acontecimentos passados em
França, onde tinha acontecido uma explosão urbana nos chamados
bidonvilles, com multidões de jovens franceses
a virem para a rua e a manifestarem alguma violência face à falta
de futuro que sentiam. Os protagonistas destes acontecimentos,
foram sobretudo jovens que viviam nos meios urbanos mais pobres,
deslocados e degradados. Outro motivo que levou a chegar a esta
conclusão foi a mediatização, no verão do ano 2000, de alguns
assaltos levados a cabo por um grupo de jovens que envolveram então
uma conhecida actriz. Começou então a pensar-se que havia uma
necessidade clara de criar em Portugal uma resposta estruturante,
que fosse adaptada à nossa realidade nacional.
PE: Como é que olha hoje para esse
processo de construção do conceito a que o Escolhas veio dar
corpo?
JP: Acho que a concepção do Escolhas foi uma boa prática
daquilo que deve ser a concepção de um programa de resposta para
problemáticas concretas, porque começámos por partir de um levantamento que foi feito nos
vários Ministérios relacionados com esta área. Foi visto tudo o que
existia na altura ao nível das respostas, quer das ONGs, das IPSSs,
das Igrejas e do próprio Estado. Eu fui encarregue de nomear uma
equipa para fazer este trabalho, que incluiu representantes das
várias pastas: Segurança Social, Administração Interna, Justiça,
Educação, Emprego, etc. Foi a partir do volumoso relatório que
traduziu este levantamento que foi depois proposta a criação de um
programa que veio a ser o Escolhas, concebido em três meses de
intenso trabalho desta equipa.
PE: E qual era então a situação em
Portugal a este nível?
JP: Constatámos que tínhamos muitos actores a intervir no
terreno. Estado e sociedade estavam a trabalhar nestas áreas mas de
uma forma desarticulada, muitas vezes duplicada, sem objectivos
específicos e sem as melhores estratégias. Isto é, o que viemos
dizer foi que não havia falta de respostas nem de intervenção
nestes bairros, haviam mesmo excelentes projectos, não havia era
financiamento adequado, integração e estratégia. O facto de
passarmos a conhecer tudo o que existia, levou-nos a desenhar uma
estratégia diferente que penso que ainda hoje é a base do Programa
Escolhas. Orgulho-me que essa estratégia tenha sido considerada
adequada e que se mantenha ainda hoje, apesar de todas as nuances
que foram sendo introduzidas.
PE: Foi inovador este
levantamento?
JP: Foi inovador na altura. A falta destes estudos prévios
continua a ser uma má prática em Portugal.
PE: Pode recordar-nos quais foram
então os seus primeiros contornos?
JP: O Escolhas começou por ter um objectivo mais
específico do que o actual. Destinava-se a tratar da inserção de
jovens da periferia urbana, especialmente nas grandes cidades de
Lisboa, Setúbal e Porto. Pensava-se de uma forma especial nos
jovens imigrantes de segunda geração, aqueles cujos pais tinham
vindo de diferentes proveniências, que viviam com dificuldades de
habitação, com percursos difíceis de aprendizagem e que tinham um
pé na vida normal e outro pé na delinquência.
PE: Houve algum modelo concreto
que tenha servido como inspiração?
JP: Na nossa equipa havia um grupo de três ou quatro
técnicos mais jovens, sociólogos e psicólogos, que deram um enorme
apoio pesquisando e estudando o que de melhor e mais avançado se
fazia na altura no mundo nesta área. Foi aliás do debate com eles
que resultou a opção pelo nome “Escolhas”. O programa começou por
ser concebido um pouco como tendo por inspiração o modelo adoptado
no Canadá para prevenir a delinquência. A prevenção da delinquência
juvenil era o grande objectivo da 1ª Geração do Escolhas.
PE: Mas com o tempo o programa foi-se abrindo a outras metas.
JP: Entendeu-se depois que este primeiro objectivo se devia expandir e que o programa se devia alargar a toda a questão da inclusão dos jovens, independentemente de qual fosse a razão da sua exclusão. O escolhas passou a dar uma resposta mais alargada.
PE: Como é que vê hoje essa evolução?
JP: Como
investigador e profissional desta área, acho que hoje em dia os
jovens que estão a caminho da delinquência juvenil precisam de
algumas respostas específicas, que o Escolhas cobre em alguns dos
seus projectos, mas que eventualmente precisariam de um
enquadramento mais alargado do que aquele que existe. Felizmente o
Programa e toda a política tem conseguido evitar que tenhamos tido
explosões sociais como se temia. Isso foi um sucesso do Escolhas.
Há no entanto jovens que já entraram na delinquência, com 15 ou 16
anos, que ainda podem sair e que precisam de um acompanhamento
específico para os problemas também muito específicos que trazem.
Outra área que me parece que está por cobrir é a área da saúde
mental. Não existe um programa de saúde mental juvenil. Estas
questões estão relacionadas pois, reflectindo a partir dos dados
que tenho, concluo que os jovens que têm problemas de delinquência
costumam também ter associados problemas de insucesso escolar, que
o Escolhas já previne, e por vezes também problemas de saúde
mental. Ao tornar mais abrangente a sua intervenção, o Escolhas
deixou de dar respostas tão específicas a estas questões da
delinquência e da saúde mental e talvez pudesse vir a desenvolver
programas nessas áreas. É verdade que as Comissões de Protecção de
Jovens têm aqui uma função muito importante, mas deixam de poder
intervir a partir dos 12 anos e há aí uma lacuna.
PE: A que é que atribui estes dez
anos de vida do Escolhas? O que é que lhe permitiu ter este
sucesso?
JP: Na minha opinião, quer na 1ª Geração quer nas outras
que se lhe seguiram, o sucesso do Escolhas assenta no facto de ter
adoptado estratégias de mediação social e cultural. São os próprios
actores locais que são agentes da mudança e da resolução dos seus
problemas. Foi decidido pela equipa que coordenei apostar nestes
tradutores, como se diz em sociologia. Entidades que a partir do
terreno traduzem localmente a linguagem do estado e vice-versa. Penso que foi esta estratégia que
levou à perenidade do Escolhas. O facto de ser uma estratégia
correcta e naturalmente também mensurável, que se traduz-se em
resultados que se podem medir.
PE: A participação e o
envolvimento são decisivos?
JP: Tornam de facto estas intervenções muito mais
eficazes. O chamado Wellfare dos anos 80 prova que não é possível o
Estado fazer tudo quando as pessoas não estão envolvidas e não
participam. O paternalismo do Estado não resolve. As comunidades e
as pessoas devem ser co-responsabilizadas, a resolução dos
problemas deve ser contratualizada. O Estado não pode intervir
contra as pessoas.
PE: E essa cultura da mediação já
é hoje uma prática corrente?
JP: A cultura das parcerias está ganha, mas a mediação
social e cultural não está ganha ainda. As políticas sociais
implementadas em 96 partiam do princípio da subsidiariedade: o
estado não faz o que a sociedade pode fazer. Mas no meu entender
isso não significa que não faça nada. Esse era também o
entendimento dos responsáveis que me pediram para conceptualizar
este programa. O estado não deve intervir quando a sociedade pode
faze-lo, mas deve ter uma função estratégica reguladora, não se
pode demitir. Por um lado não pode criar dependências, mas por
outro deve criar condições, promover e financiar o que é
necessário. Deve regular e controlar a qualidade.
PE: Quais são hoje, na sua
opinião, os principais desafios do Programa
Escolhas?
JP: Diria que hoje existe um grande desafio transversal,
que não se limita apenas ao Programa Escolhas e que tem a ver com a
questão da qualificação dos jovens que saem do ensino, da sua
empregabilidade e com as chamadas frustrações sociais. Hoje em dia
os jovens têm muito mais formação do que na minha geração e por
isso têm também obviamente expectativas sociais muito superiores.
Só que não há capacidade de resposta e essa frustração pode levar a
comportamentos complicados, à desistência, etc. Por isso o Programa
Escolhas, na minha óptica de cidadão que entretanto se desligou da
sua realidade mais próxima , continua a ser necessário e actual.
Têm uma função importantíssima de cobertura nacional de todos os
casos em que seja necessária a inclusão. Reforçaria apenas a
questão da prevenção de eventuais disrupções e a necessidade de
perceber onde é que poderá vir a ser necessário intervir e em que
áreas se poderá ter que fazer mais.
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