ENTREVISTA
O Eng. Roberto Carneiro fala sobre a sociedade do conhecimento, o
Programa Escolhas e os atuais desafios da educação.
Quais são os grandes desafios da educação no século XXI?
De acordo com a Comissão Internacional para a Educação no século
XXI, vulgo Comissão Delors a que tive a honra de pertencer, o
grande desafio é o da Aprendizagem ao Longo da Vida, que se
desdobra em quatro pilares das novas aprendizagens: Aprender a Ser,
Aprender a Conhecer, Aprender a Fazer, e Aprender a Viver
Juntos.
Como é que a partir da imensa informação que temos hoje ao nosso
dispor, podemos produzir mais conhecimento?
A oferta torrencial de informação é a ditadura da “oferta” enquanto
a produção de conhecimento coloca o acento tónico na “procura”
pessoal, ou grupal / comunitária, de padrões de cognição que
acrescem valor de utilidade cidadã, de criação de sentido e de
melhor intervenção na vida produtiva.
A tecnologia tem um papel central neste novo paradigma, estamos a
usá-la eficazmente? O potencial das redes sociais para a
aprendizagem está a ser bem aproveitado?
As nossas instituições são ainda muito prisioneiras do paradigma
das tecnologias informacionais. Estas são frequentemente
utilizadas, quer em e-Learning, quer em b-Learning, como
instrumentos para descarregar a informação sobre o aluno. A
verdadeira revolução dar-se-á com a “descoberta” por parte das
escolas, das universidades e dos professores, do enorme potencial
contido na Web 2.0, ou seja nas tecnologicas relacionais ou
comunicacionais que podem apoiar as aprendizagens sociais. A Web
3.0, ou Web semântica,”espreita” já no horizonte das ofertas de
novas ontologias e de agentes inteligentes que tornarão
infinitamente mais amigável a pesquisa de conhecimento e o diálogo
homem-máquina na busca de significação e de sentido.
Qual a importância da coesão social na produção de
conhecimento?
Todo o conhecimento é um constructo pessoal e social. Como dizia o
Mestre Paulo Freire toda a aprendizagem é “dialógica” porque,
embora fruto de esforço pessoal se sustenta no processo relacional
com o outro ou outros que me completam. A condição de acesso ao
conhecimento é o diálogo sustentado e sustentável com o mundo:
falar com o mundo e deixar que o mundo fale conosco.
A produção de conhecimento assenta cada vez mais em modelos
colaborativos, que exige muitas vezes grandes mudanças de atitude.
Estamos mais abertos e colaborativos em Portugal? Podemos vir a
aprender mais uns com ou outros, com mais autonomia e criatividade,
num futuro próximo?
Temos avançado bastante nesse sentido com a utilização de
plataformas de aprendizagem que fomentam a difusão de portefólios
digitais, wikis, blogues, foruns, chats, etc. Os portugueses não se
distinguem pela sua grande apetência colaborativa mas acredito que
está em curso uma importante transformação cultural, que se opera
principalmente na juventude, que a torna mais apta a participar em
redes colaborativas e a aprender a criar / inovar em
cooperação.
Qual a relevância da produção de conhecimento na decisão política e
na intervenção local?
Como dizia, numa sociedade cada vez mais cognocrática, em que o
conhecimento e os saberes determinam o sucesso ou o insucesso das
políticas públicas, é importantíssimo que a formulação estratégica
da política, o seu desenho concreto, a sua implementação e a sua
avaliação independente sejam cuidadosamente planificados desde o
início.
Aliás, o cidadão contribuinte é hoje muito exigente em relação ao
uso dos seus impostos e reclama, com justeza, que as políticas
públicas não se caracterizem pelo improviso nem se esconda sem a
prestação regular de contas e de resultados.
Na sua percepção de que modo considera que o Programa Escolhas
contribui para a produção de conhecimento?
O Programa Escolhas constitui um canal privilegiado de
investigação-acção, isto é de produção de novos saberes ancorados
em experiências concretas de intervenção junto de comunidades
especialmente carenciadas. A sua grande proximidade do terreno
dá-lhe uma capacidade ímpar de conquistar uma reflexividade
superior sobre a realidade das problemáticas das populações
migrantes ou de grupos minoritários e de, por essa via, conhecer
com base na reflexão colhida pelo agir.
Como entende o contributo dos projectos escolhas para a Educação,
capital cultural e social das comunidades onde actua e
destinatários com quem trabalha? Considera que o Programa Escolhas
está a contribuir através dos seus projectos para a preparação e
formação dos seus destinatários para a sociedade do
conhecimento?
Sem dúvida que sim. Sem o Programa Escolhas as comunidades
beneficiadas ver-se-iam seriamente empobrecidas nas suas opções
verdadeiramente livres e conscientes. Sempre me inspirou a
definição de desenvolvimento proposta pelo Prémio Nobel da
Economia, Amartya Sen, que o define, em última análise como o
processo que alarga as escolhas disponíveis por parte das
populações visadas. Na sociedade do conhecimento essas escolhas
devem ser informadas e fundamentadas no conhecimento de
alternativas e na formação das pessoas e das comunidades para o seu
exercício livre e em plenitude de cidadania. De outra forma, a
polis estará a excluir em vez de incluir.
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