ENTREVISTA

12-01-2012


O Eng. Roberto Carneiro fala sobre a sociedade do conhecimento, o Programa Escolhas e os atuais desafios da educação. 

Quais são os grandes desafios da educação no século XXI?

De acordo com a Comissão Internacional para a Educação no século XXI, vulgo Comissão Delors a que tive a honra de pertencer, o grande desafio é o da Aprendizagem ao Longo da Vida, que se desdobra em quatro pilares das novas aprendizagens: Aprender a Ser, Aprender a Conhecer, Aprender a Fazer, e Aprender a Viver Juntos.

Como é que a partir da imensa informação que temos hoje ao nosso dispor, podemos produzir mais conhecimento?
A oferta torrencial de informação é a ditadura da “oferta” enquanto a produção de conhecimento coloca o acento tónico na “procura” pessoal, ou grupal / comunitária, de padrões de cognição que acrescem valor de utilidade cidadã, de criação de sentido e de melhor intervenção na vida produtiva.

A tecnologia tem um papel central neste novo paradigma, estamos a usá-la eficazmente? O potencial das redes sociais para a aprendizagem está a ser bem aproveitado? 

As nossas instituições são ainda muito prisioneiras do paradigma das tecnologias informacionais. Estas são frequentemente utilizadas, quer em e-Learning, quer em b-Learning, como instrumentos para descarregar a informação sobre o aluno. A verdadeira revolução dar-se-á com a “descoberta” por parte das escolas, das universidades e dos professores, do enorme potencial contido na Web 2.0, ou seja nas tecnologicas relacionais ou comunicacionais que podem apoiar as aprendizagens sociais. A Web 3.0, ou Web semântica,”espreita” já no horizonte das ofertas de novas ontologias e de agentes inteligentes que tornarão infinitamente mais amigável a pesquisa de conhecimento e o diálogo homem-máquina na busca de significação e de sentido.

Qual a importância da coesão social na produção de conhecimento?

Todo o conhecimento é um constructo pessoal e social. Como dizia o Mestre Paulo Freire toda a aprendizagem é “dialógica” porque, embora fruto de esforço pessoal se sustenta no processo relacional com o outro ou outros que me completam. A condição de acesso ao conhecimento é o diálogo sustentado e sustentável com o mundo: falar com o mundo e deixar que o mundo fale conosco.

A produção de conhecimento assenta cada vez mais em modelos colaborativos, que exige muitas vezes grandes mudanças de atitude. Estamos mais abertos e colaborativos em Portugal? Podemos vir a aprender mais uns com ou outros, com mais autonomia e criatividade, num futuro próximo?
Temos avançado bastante nesse sentido com a utilização de plataformas de aprendizagem que fomentam a difusão de portefólios digitais, wikis, blogues, foruns, chats, etc. Os portugueses não se distinguem pela sua grande apetência colaborativa mas acredito que está em curso uma importante transformação cultural, que se opera principalmente na juventude, que a torna mais apta a participar em redes colaborativas e a aprender a criar / inovar em cooperação.

Qual a relevância da produção de conhecimento na decisão política e na intervenção local?

Como dizia, numa sociedade cada vez mais cognocrática, em que o conhecimento e os saberes determinam o sucesso ou o insucesso das políticas públicas, é importantíssimo que a formulação estratégica da política, o seu desenho concreto, a sua implementação e a sua avaliação independente sejam cuidadosamente planificados desde o início.
Aliás, o cidadão contribuinte é hoje muito exigente em relação ao uso dos seus impostos e reclama, com justeza, que as políticas públicas não se caracterizem pelo improviso nem se esconda sem a prestação regular de contas e de resultados.

Na sua percepção de que modo considera que o Programa Escolhas contribui para a produção de conhecimento?

O Programa Escolhas constitui um canal privilegiado de investigação-acção, isto é de produção de novos saberes ancorados em experiências concretas de intervenção junto de comunidades especialmente carenciadas. A sua grande proximidade do terreno dá-lhe uma capacidade ímpar de conquistar uma reflexividade superior sobre a realidade das problemáticas das populações migrantes ou de grupos minoritários e de, por essa via, conhecer com base na reflexão colhida pelo agir.

Como entende o contributo dos projectos escolhas para a Educação, capital cultural e social das comunidades onde actua e destinatários com quem trabalha? Considera que o Programa Escolhas está a contribuir através dos seus projectos para a preparação e formação dos seus destinatários para a sociedade do conhecimento?

Sem dúvida que sim. Sem o Programa Escolhas as comunidades beneficiadas ver-se-iam seriamente empobrecidas nas suas opções verdadeiramente livres e conscientes. Sempre me inspirou a definição de desenvolvimento proposta pelo Prémio Nobel da Economia, Amartya Sen, que o define, em última análise como o processo que alarga as escolhas disponíveis por parte das populações visadas. Na sociedade do conhecimento essas escolhas devem ser informadas e fundamentadas no conhecimento de alternativas e na formação das pessoas e das comunidades para o seu exercício livre e em plenitude de cidadania. De outra forma, a polis estará a excluir em vez de incluir.

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